26 de outubro de 2010

Indignação

É só o título da minha leitura actual. "Indignação" de Philip Roth. Mais uma leitura iniciática para mim, é o primeiro Roth que leio. Gosto. É envolvente mas claro e preciso nas emoções, nos ambientes, na escrita.

Apraz-me constatar que ao fim de praticamente 4 anos estou a recuperar gradualmente os meus tempos de leitura. Ler não é algo mensurável, não interessa ler ao quilo mas entristecia-me a falta que sentia de o poder fazer porque sabemos que nunca haverá tempo suficiente para ler tudo o que se desejaria. Jamais voltarei a ler quase um livro por semana (quando não dois) mas limitar-me a um por ano era insuportável. Estou a recuperar e, melhor, a descobrir autores novos também.

22 de outubro de 2010

Bom fim de semana

...

Pior do que as desilusões é a incapacidade de abortar as ilusões antes que pulsem.

21 de outubro de 2010

Sem complicações

Se falo, ouçam, não só com os ouvidos, mas com os olhos e a cabeça, não me interrompam, não me forcem ao silêncio; se recolho a mim, não me perguntem, adivinhem-me, não me peçam palavras, ouçam os meus silêncios, esperem...
Não sou complicada, é uma dicotomia simples.

19 de outubro de 2010

Dialéctica

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...


Vinicius de Moraes

14 de outubro de 2010

Dores de parto



Olho para ti enquanto me dizes qualquer coisa sobre os cavalos da quinta ou os leões da selva, olho-te e meço-te e vejo-te crescer segundo a segundo. Ao orgulho pelo que és e no que te tornas junta-se um friozinho na barriga, um formigueiro nas mãos, uma leveza estranha nos braços por já não lhes caberes enrolado junto ao meu peito, pelas tuas asas começarem lentamente a sacudir-se, a ganhar espaço, pelas tuas palavras darem voz às tuas ideias e por lutares por elas. E às vezes lês-me o pensamento e abraças-me e dizes "gosto muito de ti" e a custo te liberto do abraço e fico a olhar-te, a medir-te, a ver-te crescer segundo a segundo e a sentir-me tremer, no coração, nas mãos, nos olhos. 

13 de outubro de 2010

12 de outubro de 2010

Sem título

Ando um bocado cansada: dos egoístas do asfalto que não dão pisca para nada porque cansa muito; dos que estacionam ocupando dois lugares; dos que atiram lixo para o chão desde piriscas a pacotes de cigarro amarrotado, de pastilhas elásticas a lenços de papel; das faltas de pontualidade; dos pais que são piores do que os filhos no incumprimento dos regulamentos; dos que sabem as regras do jogo mas não as cumprem só porque não; de pagar impostos para que outros usufruam de baixas (fraudulentas), licenças de maternidade (de 12 meses), gravidezes de risco (a partir dos 0 meses) e tantas outras aldrabices; de como a miséria de uns serve os propósitos de outros que fazem da solidariedade e da caridade um espectáculo público; de ver premiada a bandalhice, a falta de rigor, de ética e de qualidade; de ver como o parecer continua a superar o ser sem pudor.
Ando cansada de me sentir a remar contra a maré; de sentir que tenho potencialidades que não posso explorar; de me sentir desenquadrada...
Ando tão cansada que não me apetece sair à rua, não me apetecem as conversas de circunstância, não me apetece constatar a minha falta de habilidade para jogar este jogo. Valem-me os momentos preciosos com as minhas alunas para esquecer uma equação que claramente não sei resolver.

9 de outubro de 2010

Eclectismos

Tal como em tudo na minha vida também na blogosfera tenho um gosto variado e são vários os blogs que me despertam a atenção, uns porque são muito bem escritos e reflexivos; outros porque são apaixonados por algum tema em particular (fotografia, literatura, etc) e espelham-no de uma forma interessante e inteligente; outros ainda porque me fazem desejar ser dotada para a culinária/doçaria; outros porque me inspiram para a decoração, bricolage e coisas domésticas e outros simplesmente porque são bem humorados. Posto isto, não enquadro este blog em nenhuma categoria uma vez que se fala de tudo e de nada; não ruma em nenhuma direcção específica; não é metódico na sua periodicidade ou na escolha da temática; os posts são espontâneos sem agendamentos nem rascunhos; a escrita e as ideias não são originais ou especialmente inteligentes; o humor também não é o meu forte e do meu trabalho que é a minha paixão e se funde com um hobbie evito escrever sob pena de não "falar" de outra coisa. Talvez seja um reflexo desse eclectismo, talvez seja reflexo de indefinição, insegurança ou de outra coisa qualquer que não queira traduzir. Talvez não seja exactamente como eu gostaria e imaginei (um espaço onde conseguira lidar com as palavras) mas fez um ano (ainda que com algumas interrupções) que o inaugurei, pouco depois de ter descoberto a blogolândia, e se me arrependo de alguma coisa é só mesmo de ter extinguido a sua primeira parte (De Horas Contadas) num acto impulsivo e irreflectido.

6 de outubro de 2010

Experiências

Com quase 4 anos o meu filho nunca tinha ido ao mercado. Com 4 anos eu já lá tinha ido muitas vezes, com a minha avó principalmente mas também com os meus pais. Hoje para ir ao mercado fazemos mais km de carro e temos de pagar estacionamento mas a experiência que oferece e a qualidade do que se traz para casa vale a pena. No sábado de manhã lá fomos, os três e o saco das compras (a minha avó tinha uma ceira eu tenho um saco que se dobra todo, cabe na carteira e tem o mickey estampado a preto e branco). Escusado será dizer que o meu filho adorou. Adorou a simpatia das mulheres das bancas que se metiam com ele, adorou ser ele a colocar as cenouras num saquinho para a vendedora pesar em vez de me ver pegar num saco com cenouras raquíticas e sem sabor e atirar com ele para dentro de um carro de arame, adorou ser ele a pagar (entenda-se ir entregar a moeda à senhora e esperar o troco) e adorou correr as bancas connosco procurando o que mais nos agradava.
Porém, tudo é diferente nas minhas lembranças: havia no mercado mulheres com patos, coelhos, galos e galinhas e pintainhos vivos dentro de cestos e eu queria "fazer festinhas" a todos (e não comer nenhum); a minha avó não trazia nada pelo preço que lhe pediam e trazia tudo pelo preço que estava disposta a pagar e sabia escolher da fruta aos legumes do peixe à carne. Tinha uma arte de regatear (hoje diríamos de negociar o preço) que se ficou sem descendentes porque ela já não vai ao mercado e nós não o sabemos fazer por acanhamento ou por não ter experienciado as privações de outros tempos.
Escusado será dizer também que as compras do mercado proporcionaram sopa e saladas com sabor melhorado no fim de semana!

Atentados urbanísticos

O antigo Teatro Avenida de Coimbra




foi atentatoriamente demolido (talvez em finais dos oitenta, inicio dos noventa porque ainda me recordo bem) para a construção de um centro comercial que nunca foi bonito ou arquitectonicamente interessante, nunca foi muito popular em termos de comércio mas tinha 3 salas de cinema e estava, por isso, sempre cheio até uns 6/7 anos atrás. Agora continua lá, qual impostor, ocupando um espaço que não lhe pertencia, continua feio e sem interesse urbanístico e pior, também ele desértico, sem cinema, salas fechadas, uma desolação.


A cidade perdeu a oportunidade de renovar uma belíssima sala de espectáculos clássica, perdeu-se nos meandros dos interesses imobiliários e nada mais se fez. Dolce Vita - cinema; Forum - cinema; um ou outro espaço alternativo de pequenas dimensões e é tudo e é pena. Não há um espaço de espectáculos condigno. O Teatro Académico de Gil Vicente vai cumprindo a sua função mas o palco é exíguo para determinadas apresentações e as condições gerais estão longe de ser boas.
Se há coisas que me entristecem na minha adorada cidade esta é uma delas e parte-se-me o coração de cada vez que passo por esta Avenida.
E o pior é que não é caso único na cidade, nesta e em muitas outras.

1 de outubro de 2010

Defeito profissional

Ultimamente faltam-me as palavras e cada divagação/constatação surge ilustrada com imagens. 
Às vezes é assim e talvez porque no meu trabalho faça um exercício diário de procurar images que melhor ilustrem a dinâmica de um movimento; a engenharia do corpo e as engrenagens que têm de funcionar e como para obter uma determinada componente técnica; a emoção/sensação por detrás de cada música. Isto é fundamental para o ensino da dança em qualquer idade, com imagens adaptadas a cada faixa etária. Recorrendo a elas consegue-se que algumas coisas que não se vêem, se sintam e passem a ser visualizadas, dominando o abstracto e transformando-o em concreto, em técnica com sabor, com cheiro, com sentimento.
Não sei se é a isto que chamam de defeito profissional  mas certo é que muitas vezes e fora do contexto lectivo procuro imagens para ilustrar o meu pensamento e algumas vezes mais do que palavras. E se é defeito profissional tenho muitos outros.
Esta é uma dessas fases e por isso este blog de repente tenha mais imagens do que palavras mas não sou fotógrafa, só capto imagens, que fazem sentido, para mim.

Dois pesos, duas medidas

A mesma coisa pesa de formas diferentes em diferentes estádios de uma vida.

(Mercado D. Pedro V - Coimbra, secção hortícola)